entre um dia e outro

2009 E 2010: ARQUIVO DE RESIDÊNCIAS . 2011 e 2012: PROJETO ESCUTA NÔMADE

Uma arte para surfistas

Agora no Rio. Ontem, na pracinha do aeroporto, enquanto esperava a carona, uns pássaros cantavam, impliquei ser uma cacatua avisando “Você está na Floresta Atlântica”. Logo mais à noite começa a IV Mostra Live Cinema com um videomapping. A inovação tecnológica está mais marcada na exibição de abertura pela participação do público na projeção através dos seus próprios celulares: o público instala um aplicativo em seus smartphones que lhe permite interagir com as imagens. Refletir sobre o lugar do público, o tipo de relação que se estabelece com a criação, nos possíveis novos cinemas parece um ótimo começo para esta mostra. Agora conferir como isso é feito e para que é feito, com que intenções poéticas.  A tecnologia em uso está longe de ser o mais importante – logo não será mais a mesma – mas a prontidão para a pesquisa, o envolvimento radical com as torrentes do conhecimento; são artistas-surfistas em sintonia corporal/mental com as gigantescas vagas de tecnologias digitais e a arte contemporânea, alegrando-se com a possibilidade de ir o mais longe possível, da forma mais elegante – ou atabalhoada, acontece – que conseguirem. É o movimento de uma época.  Nos próximos  dias  postarei fotos, vídeos e comentários sobre as performances destes artistas-atletas que terei oportunidade de acompanhar no IV Live Cinema e no Festival de Arte Digital que acontece logo em seguida em Belo Horizonte.  Seguimos conversando e compartilhando.

Os artistas responsáveis pela  proposta de abertura são:

Rafael Marchetti

http://www.rmarchetti.com/index/index1.html

Rachel Rosalen

http://www.rachelrosalen.com.br/

Programação da IV Mostra Live Cinema

http://www.livecinema.com.br/artigo/234

Oficina de Desenho Cultural em Juazeiro do Norte

(Texto: Júlio Lira / Fotografias: Saymon e Mônica Batista)

Momento de compartilhar quatro dias bem especiais passados em Juazeiro do Norte para difundir o gosto e a possibilidade das pequenas intervenções no cotidiano urbano dentro da programação do Cenro Cultural Banco do Nordeste. Os participantes da oficina foram um pouco mais de 10 pessoas, entre os quais duas meninas e dois meninos, que frequentam o Centro Cultural há vários anos. Duas universitárias de história, duas de geografia, um estudante de comunicação. Uma professora de ensino fundamental e um professor universitário completavam o time. Junto comigo, na mediação da oficina, Thiago Coutinho que cuidará dos Percursos Urbanos no Cariri. Essa mistura de pessoas, de origens deu um caldo muito fértil.

Cidade-movimento, Juazeiro parece deixar as pessoas prontas para a ação

Partindo de experências anteriores  –  Iniciamos a oficina falando das contribuições de Duchamp e de Joseph Beuys para o campo da arte. Do primeiro ressaltamos a importância do processo de pensar, da relativização da manufatura e do artesanato dentro do processo criativo. Do segundo enfatizamos a incoporação do “nós”, da articulação coletiva em função de uma reconstrução política do mundo. Daí trabalhos também o conceito de ‘Negociação’ como intrumento fundamental neste tipo de trabalho.  Esses conteúdos deram a deixa para apresentar exemplos de práticas estéticas de intervenção. Utilizamos como exemplos a própria Universidade Livre Internacional, de Beuys; a Cozinha Nômade, de Mick O’Kelly; as redes de comunicação de Antonio Abad; a proposta Estante Pública; os ID Barrios; a sala para descanso das prostitutas de Viviana Bravos. Dos trabalhos desenvolvidos por nós na Mediacão nos estendemos apresentando os Narrativas em Volta do Fogo, os Percursos urbanos, os Gestos pelas Cidades.

Muitas vivências de desenho, não como produto, mas como instrumento da imaginacão

Desenho como croqui – Assim, com exemplos de iniciativas ficava mais fácil explicar a noção de que o desenho a que nos referíamos não era um produto a ser contemplado ou exposto numa galeria ou guardado num caderno. Mas é o desenho que é esboço, que é plano, croqui, rascunho para algo que queremos fazer acontecer. Passamos logo ao lápis e ao papel, para não ficar monótono, solicitando que as pessoas divididas em duplas ou trios bolassem alguma proposta. Os pensamentos surgiam e íamos discutindo, dialogando. No final da tarde do primeiro dia os desenhos foram apresentados e discutidos pelo grupo.

Trocas de experiências, negociações de desejos e disposições (Foto:Mônica Batista)

Escrever projeto não! Ação!  No segundo dia discutimos o que fazer: aprender a fazer um projeto para conseguir um financiamento ou realziar uma ação pequena a partir das propsotas levantadas? Todos escolheram realizar algo imediatamente. A partir daí o curso virou uma agência de operações. Coletivamente escolhemos os trabalhos mais simples e viáveis de serem realizados. Decidimos que sera um evento na Praça Pe. Cícero, na sexta, das 17 às 19 horas, horário que gerou o nome da iniciativa NA HORA DAS MURIÇOCAS  (NÃO FIQUE PARADO). De fora, por exigir mais preparação ficou o projeto Tamboretes de Forró, que propõe uma metodologia de conversas para grupos de idosos.

Às 16:30h a turma estava na Praça Pe. Cícero criando os diversos ambientes da intervenção imaginada

Na sexta-feira o Manuel , produtor do CCBNB já havia conseguido autorização municipal e rede elétrica. E nos mudamos para a praça com nossas tranqueiras. Em meia hora,  já havíamos construído um novo cenário no cotidiano da cidade.  Seguem algumas fotos das atividades desenvolvidas.

Crianças sem teto se juntaram ao movimento, pintando o letreiro do evento. As palavras, com uma fonte especail, haviam sido pre-desenhadas pelo artista Saymon (foto do mesmo).

Os adolescentes resolveram colocar a disposição dos frequentadores da praça uma pequena coleção de cordéis. Entre os títulos clássicos como 'A chegada de Lampião no Céu', 'A história do bode Ioiô e o seu encontro e amizade com Orson Welles'; 'Ana Paula, a jovem que se rifou para ir morar em São Paulo'. Um ccordel que sempre gerava risos era o escatológico 'O valor que o peido tem'. (Foto: Mônica Batista).

A idéia do karaokê de poesia mostrou-se bem viável. Além do microfone aberto, que foi ocupado por pessoas interessadas em apresentar seus poemas, o público podia participar lendo poemas sorteados.

Outra rodada de leituras de poemas

Albuns de Família: pessoas da cidade foram convidadas para apresentar suas fotografias. Era saindo uma e entrando outro, todos muitos generosos em compartilhar suas relíquias e memórias.

Sucesso total, os álbuns. Quem sabe não terá continuidade...

Que não trouxe fotografia no papel, trouxe num pen drive e a conversa continuou forte. Até crianca ouvia hipnotizada a memória do envenenamento de Floro Bartolomeu e da escaramuça entre a Coluna Prestes e o bando de Lampião.

A proposta inicial de oficinas em praça pública foi simplifcada com uma apresentação de um forno solar. Era distribuída uma folha com um plano de construção de um forno solar e as pessoas eram convidadas a ver um modelo. Era muito bacana ver as famílias, atentas, interessadas, da mesma forma que fariam com um objeto de alta tecnologia.


O quiosque de papelão onde havia um trabalho audiovisual do Thiago Coutinho teve que suportar uma fila de espectadores

Do lado de fora do quiosque Tiago afixou uma placa que perguntava DE QUEM É ESSA CALÇADA?

Do lado de dentro do quiosque uma sessão de fotografias do conturbado centro de Juazeiro. No contraste, uma trilha sonora deslocada de sons da natureza mixados com melodias também dissonantes das imagens.


Ficou para depois uma idéia complementar: apresentação do modelo do forno solar para um mestre zinqueiro da Associação Mestre Noza. Quem sabe das velhas latas de querozene não surja um novo produto nos mercados populares do Cariri?

Além da memória de bons dias de imaginação e trabalho, trouxe uma figura de madeira para o alto da nossa porta de entrada e de saída.

Para cair na estrada

A viagem do Escuta Nômade está prevista para últimos dias de agosto, mas o projeto em si já se iniciou. Estamos preparando uma identidade visual que será incorporada em camisetas, textos e no estúdio nômade de entrevistas. Estamos aos poucos convidando pessoas de Fortaleza para se agregarem, procurando explorar as possibilidades do intercâmbio que virão. Alguns recebem a proposta de forma entusiasmada, outros ficam indiferentes. Com gestores e curadores  veremos a possibilidade de participarem de intercâmbios com seus pares latino-americanos, além de pensarmos juntos a formação de turmas para aulas à distância por artistas que iremos convidando para ministrar mini-cursos de apresentação de processos de trabalho e uso de softwares específicos. Gostaríamos de começar com aulas do Gimp com Naldo Rodrigues, de Recife.

Outra frente de trabalho atual é articulação dos contatos. Tivemos um início com pé direito no Paraguai, com um diálogo muito amigável com Daniel Milessi, da Galeria e Residência Planta Alta (veja foto). Tudo aponta para uma aproximação de Fortaleza e Assunção no campo das artes. Acertamos a realização de uma oficina de desenho cultural na qual apresento propostas que realizamos como os Percursos Urbanos e o Narrativas em Volta do Fogo.

Casarão onde funciona a Galeria/Residencia/Bar Planta Alta

A tecnologia para emissão ao vivo das entrevistas ainda não foi decidida. Abrimos o canal Escuta Nômade no Livestream e aprendemos a usar os recursos de edição disponíveis. Mas gostaríamos de trabalhar com mais de uma câmera, com mais recursos para edição ao vivo. Quando aprendermos isso, poderemos replicar esse know-how na viagem mesmo. É uma frente de trabalho muito interessante.

Enfim, vamos adiante, na confiança de que as pessoas querem dialogar, desenvolver trabalhos e novos projetos juntas, e que a escuta é uma ferramenta poderosa.

Um olhar de 2011 para 2010

PROJETO: PERCURSOS URBANOS
MOSTRA SESC DE ARTES – 19 à 28/11

19/11 SEXTA
SESC CONSOLAÇÃO
19h30 / 23h

A São Paulo epifânica de Caio Fernando de Abreu. Neste roteiro iremos acompanhar a literatura e personagens de um autor mestre na exposição da solidão humana, da procura por amor e cumplicidade. O circuito do baixo centro servirá de ambiente para leituras e dramatizações.

Mediador: Rodolfo Lima
Trabalhos como ator: Réquiem para um rapaz triste (2003) e Todas as horas do fim (2004), como diretor: Epifanias (2009) e Epifanias 2 (2010) e a produção da Mostra Cênica Caio Fernando de Abreu (2009). 

20/11 SÁBADO 
SESC CONSOLAÇÃO
15h / 18h30

Para Além dos Olhos: uma deriva guiada. Um roteiro para pensar nas deficiências das pessoas comuns, profundamente ligadas ao mundo pela visão e incapazes de chegar a ele através de outros sentidos. Como mediador, uma pessoa cega que nos guiará pelos limites e possibilidades da ausência de visão. Vendas para os olhos estarão disponíveis aos participantes.

Mediador: Claudio Marcos Ângelo
Deficiente Visual há 14 anos após sofrer um acidente, é freqüentador da Associação Brasileira de Assistência ao Deficiente Visual, onde também trabalha no departamento de telemarketing. Toca violão, joga futebol e não dispensa uma partida de dominó.


21/11 DOMINGO 
SESC CONSOLAÇÃO
15h / 18h30

A cidade como playground. Neste percurso vamos observar como as estruturas urbanas são reapropriadas e resignificadas por seus habitantes, em especial pelos jovens, em uma provocação à arquitetura instituída. Skate, Le parkour serão algumas das práticas de transformação urbana a serem vivenciadas, apreciadas e analisadas.

Mediador: Alexandre Barbosa Pereira
Doutor em antropologia social, associado ao Núcleo de Antropologia Urbana da USP, pesquisa práticas culturais juvenis no contexto urbano.


22/11 SEGUNDA 
SESC CONSOLAÇÃO
15h / 18h30

Rotas do alimento: do mundo ao mercado. A recomendação para este percurso é levar uma boa sacola porque iremos a mercados para comprar o de comer e o de beber. Ali, entre bacias e balanças, vamos aprender sobre a história da alimentação no Brasil, sobre as origens e disseminação dos produtos agrícolas, enfim será uma boa ocasião para pensar sobre a formação de nossos sabores e gostos.

Mediadora: Dolores Freixa 
Historiadora, professora universitária do curso de turismos e patrimônio da Universidade de Guarulhos, guia turística cultural, autora dos livros: “Gastronomia do Brasil e do mundo”; Senc editora e “Culinária brasileira – Raízes culturais do nosso país”; editora Larousse do Brasil.

23/11 TERÇA
SESC CONSOLAÇÃO
15h / 18h30

Pequena Jornada Teológica Poética. Pode a arte ser o lugar do Sagrado? Neste percurso nos propomos a encontrar romancistas, poetas, artistas e conhecer a angústia, a teologia bruta que pulsa no fundo dos seus textos. E depois? Depois Guimarães Rosa nos dirá: “Tudo, para mim, é viagem de volta”.

Mediadora: Cristiane Tavares

24/11 QUARTA
SESC SANTO AMARO
15h / 18h30

Em cada canto um conto: uma experiência teatral Um passeio por lugares da cidade onde memórias pessoais são compartilhadas, ganham vida e tornam-se vivências coletivas através do teatro e da música. Valorização da escuta e dos narradores, exposição de processos criativos serão algumas das marcas deste roteiro dramatúrgico desenvolvido por quatro atrizes.

Mediadores: Grupo Nhê Maria
Grupo de teatro pesquisador da arte cênica em duas vertentes: o improviso e a construção de cenas, tendo como foco  encontrar outra relação com a platéia, tendo como guia das ações o resgate da memória e a relação na inserção espaço-tempo.

25/11 QUINTA 
SESC SANTO AMARO
15h / 18h30

Arte pelas margens. Onde a ligação do ser urbano com o céu, a floresta, as águas? Neste roteiro propomos uma ligação com a água que vai além das torneiras. Passearemos pela Represa Billings, contemplaremos bichos e gentes, acompanharemos artistas anfíbios e suas práticas resistentes  e até conspiraremos por uma cidade zelosa por suas águas.

Mediadores: Mauro Sergio Neri da Silva e Cesar Pegoraro
Mauro Sergio Neri Silva – Mauro é artista, educador, grafiteiro e (ou) artista plástico.
formado em artes visuais, integrante do coletivo Agentes Marginais e idealizador do Projeto Imargem, que realiza ações multidisciplinares envolvendo a comunidade na conservação ambiental. 

26/11 SEXTA 
SESC SANTO AMARO
19h30 / 23h

Comida de Santo.  Oferendas destinadas as Entidades espirituais e aos Orixás, as comidas sagradas dos terreiros, feitas por cozinheiras de santo  nos ajudarão a compreender melhor, neste percurso, a personalidade dos santos, as formas de devoção, as funções dos alimentos e a relação entre corpo e espiritualidade nas religiões de matriz africana.


Mediador: Reginaldo Prandi, escritor do livro Mitologia dos Orixás, A criação do Mundo – contos e lendas afro-brasileiros, Morte nos Búzios, Segredos Sagrados – Orixás na Alma Brasileira
 

27/11 SÁBADO 
SESC SANTO AMARO
15h / 18h30

Pela alma e pelo corpo, outras medicinas. A busca pela saúde e pelo bem estar nem sempre passa pela ciência e pela farmácia.  Neste percurso investigaremos práticas populares da região de Santo Amaro de se alcançar a cura, seja por meio de plantas e substâncias medicinais, seja por meio de gestos, orações.

Mediadora:  Ana do Val
Arquiteta, urbanista e artista plástica, pesquisadora do Grupo de Estudos em Mídia Impressa no COS/PUCSP. Etudou na escola de Belas Artes de Frankfurt. Coordenadora executiva de mapeamentos e interfaces digitais do Núcleo de Desenvolvimento Cultural do Intituto Polis, onde cordena projeto de mapeamento sociocultural da zona sul de São Paulo para o SESCSP. 

28/11 DOMINGO
SESC SANTO AMARO
15h / 18h30

Santo Amaro – Bom Retiro Território em Trânsito. Como a arte pode se relacionar com processos de transformação urbana e social? Este percurso ao  estabelecer ligações entre dois diferentes bairros da cidade, colocará em evidências pessoas e práticas artísticas  que ativam processos  que potencializam a capacidade criativa do espaço social local.
Mediadora: Lilian Amaral
Artista visual, mestre e doutora em artes visuais pela ECA/USP, pesquisadora curadora em projetos de arte pública contemporânea, desenvolve o projeto: Arte urbana no Brasil e paises Ibero Americanos, integra o coletivo POCS/Barcelona, dirige o projeto: “Museo aberto: a cidade como museo”

www.pocs.org

Um olhar de 2011 para 2010

Fly dos Percursos Urbanos na Mostra Sesc das Artes de São Paulo

Um olhar de 2011 para 2010

Quando terminaram os percursos para o SESC de São Paulo eu fiz um e-mail para compartilhar alguns das percepções, sentimentos. Na época, eu e a Thaís não tivemos tempo de alimentar um blog. Posto agora o fly, a lista dos percursos, este e-mail e amanhã ou depois algumas fotos para que a nossa memória tenha essa ajuda.

Gente gentil….

também saio agradecido e com a memória saindo pelo ladrão como os novos souvenirs. Fica a visão do terraço do copan, noite de céu aberto com luzinhas dos aviões subindo e descendo, meio a milhões de outras amareladas, ou a milhares vermelhas na ponta dos para-raios, bem abaixo de uma lua que parecia querer se enturmar. Também vou levar a imagem da névoa que foi se fechando sobre a represa, transformando-se em um gravura chinesa, para em seguida não ser mais nada, só névoa e estranhamento. Fica a chuvinha no rosto, sapato meio molhado, alarido educado de adolescentes felizes e uma balsa deslizando por entre dois trapézios. Fica uma história terrível como só as de carochinha podem ser, com lenha, floresta, cavalo, caçador, rapto, escravidão e libertação. E choro e dor e bálsamos. Fica o remorso pelo peso da caixa de som e a vontade de um motorzinho, ou que fosse um vilão de história em quadrinhos levando-a por percursos infindáveis morros acima até mudar de alma. Fica a imagem de plantinhas do Caio Fernando Abreu ainda hoje vivas e bem cuidadas por seu amigo, fica essa sensação de que o afeto gera tempo e disponibilidade, inclusive para passear. Ah… levarei comigo durante muito, muito tempo a lembrança de um trabalhador do mercado improvisando uma venda para compartilhar que experimentávamos naquele percurso guiado pelo Marcos. Claro que Gabriela vai ficar em lguar especial, assim como os guardachuvas, a água, o brigadeiro, a bolsa, todas aquelas pequenas coisinhas, que mostraram um jeito suave de cuidar. Vou continuar lamentando não ter ido ao percurso da Comida de Santo e para compensar vou rir lembrando de quando entrei no quarto do hotel que já estava ocupado: esqueço nunca a mulher segurando com uma mão o lençol acima dos peitos, dando um pulo e aplicando uma portada muito segura na minha cara. A primeira portada ninguém esquece.

Enfim, caros novos amigos, , acho que o mesmo diz a Thaís, não vou esquecer de vocês, da Sandra com quem tenho tantoas identidades estéticas (o gosto pelo Ministry of Sally Walk: algum dia teremos coragem de sermos tão ridículos?), a Tatiane, tão doce e envolvida com missões impossíveis (encotnrar identidade para Sergipe), a Denise que possui dento de casa a mais amável das previdências privadas, o Tomaz que faz da arte exercício de humanidade, o Rafa a tudo atento e atencioso.

Vou fazer um foto mental nossa ao lado da prateada Gabriela e do seu Vicente. Não sou muito dado a nostalgias mas quem sabe algum dia eu não queira mostrar algumas fotos antigas, falar de coisas que aconteceram, assim pequenas, assim especiais.

Júlio

Isso é arte, né?

10-3101

Seu Luis chegou cedo. É de uma das comunidades de catadores de lixo que iríamos visitar naquele 31 de outubro. Antes das outras pessoas chegassem, ele me perguntava com sincera curiosidade: O que tem a Bienal a ver com a minha comunidade? Eu expliquei uma primeira vez mal, talvez sem ter entendido sua pergunta ou subestimado a profundidade que lhe interessava. Ele refez a pergunta: Eu entendo que este percurso tenha até a ver com cultura, mas com arte? Como este percurso pode ser arte? Eu tomei fôlego e falei de coisas como a crise da representação, do uso de objetos como índices, de artistas que usavam as relações como matéria prima, de outros que moldavam situações. Não soube se respondi bem, se ele havia ficado contente.

Mais tarde passamos no Parque Harmonia e de lá fomos à Favela onde mora e trabalha. Explicou-nos que serão deslocados para outro bairro, mas que montaram uma estratégia para esta mudança, de forma a não levarem os problemas da favela para o lugar para onde vão. Iriam primeiro desenvolver várias projetos na favela, para quando estiverem mais organizados se mudar para as casas novas.

Depois de andarmos bastante e sermos muito bem recebido pelos moradores, ele deu uma palavra de despedida em que refletia sobre nossa visita e afirmava:

“Com arte você vai um pouco além ou muito além daquilo que você está vendo, daquilo que está ali. Vendo sobre este sentido a nossa comunidade é arte. Vejam bem, aqui vocês não vão achar violência nunca. (…) A gente poderia fazer uma universidade de como se viver bem com pouquíssimo dinheiro, aqui ninguém é mau com a vida, sem quase nada, só tem calor humano. Neste sentido eu acho isso arte, como as pessoas conseguem viver com tão pouco, do que a sociedade acha que é tão importante, e transformar aquilo em coisas boas. Eu vivo aqui há dois anos e meio. Eu não tenho o que antes tinha, mas o que hoje eu tenho antes não tinha. Isso é arte, né?”