entre um dia e outro

2009 E 2010: ARQUIVO DE RESIDÊNCIAS . 2011 e 2012: PROJETO ESCUTA NÔMADE

Arquivo para Rio de Janeiro

Na ponta dos dedos

Dificuldades de conexão nos impediram de postar a miúdo sobre a IV Mostra Live Cinema. Mesmo tarde seguem agora alguns comentários avulsos.

Um dos trabalhos de abertura, Socket Screen, de  Rafael Marchetti e Rachel Rosalen, merece uma descrição.  Cheguei a tempo de ouvir das caixas de som um boa noite e a explicação de que quem não dispusesse de smartphone para participar da performance poderia pegar emprestado ali mesmo. Diante de nós um software na telinha de um celular e depois de fuçar um pouco entendemos como funcionava a proposta. Escreviamos uma palavra, o aparelhinho enviava em wi-fi para um servidor local que filtrava e transformava como palavra de busca dentro das codificações do google. Como resultado, imagens referentes à palavra escrita apareciam interagindo com imagens provocadas por outros participantes.   O posicionamento das imagens era padronizadas, nunca inclinadas, ou de ponta-cabeça. O trabalho não desperta atenção pelas formas visuais,  não se destacava na projeção nada especialmente interessante, mas provocava nos participantes sensações relacionadas à interatividade: a telona na Fachada do oi Futuro aparecia como mídia pública, espaço de poder acessível na ponta dos dedos. E a participação foi intensa, as pessoas postaram bastante e ficavam atentas procurando ler nas imagens as intenções, as idéias que estavam em curso, ou mesmo as possibilidades tênues de relação entre as diferentes imagens. Aos emblemas e fotografias do Flamengo corresponderam minuto depois emblemas e fotografais do Vasco; dos simbolos do Rio sucederam-se imagens do mar. Ainda que sem fio narrativo as pessoas assistiram com muita atenção, tal qual assistiriam um filme.

DIÁLOGO OU DISPUTA – Em parte, o interesse do público foi gerada por uma das dificuldades do trabalho: a participação na edição das imagens acaba se transformando em luta por afirmações individuais, onde a tela é ao mesmo tempo arena e trunfo. Tal como sucede com frequência na economia da atencão, percetptível no uso das redes sociais. O diálogo, a construção coletiva, que eram as intenções dos criadores não aconteceram. Mais tarde, em uma das oficinas, ele reconheceriam que era um trabalho em processo ainda com objetivos a serem alcançados como o de melhorar a situação de diálogo. Formalmente, disseram, não conseguiram colocar um certo ritmo de contração-explosão na massa de imagens. Ao que parece, o número de intervenções do público foi tão grande que deu tilt no sistema, com as imagens se sucedendo sem um tratamento mais elaborado de conjunto, quase sempre apenas surgindo e justapondo-se as imagens.

Do ponto de vista da história do cinema, certamente vemos neste tipo de trabalho o germe da experimentação da forma de exibição e fruição do cinema. E à parte, a constatação que o celular terá ainda muito tempo como a mais multiforme e disseminada das interfaces digitais, a prótese humana mais avancada, através da qual as técnicas de edição se disseminarão, a exemplo do aplicativo para iphone DJ Mixer desenvolvido pelo DJ Spooky, que possbilita aos usuários misturarem sons e músicas diferentes. Enfim, a ponta dos dedos ficou mais ramificada e seus raios bem mais poderosos que no tempo da primeira rebelião, a do controle remoto.

Trabalho de Tatiana Grinberg, artista cujo trabalho que conheci numa das folgas da IV Mostra Live Cinema

Trabalho de Tatiana Grinberg, artista cujo trabalho conheci numa das folgas da IV Mostra Live Cinema


Uma arte para surfistas

Agora no Rio. Ontem, na pracinha do aeroporto, enquanto esperava a carona, uns pássaros cantavam, impliquei ser uma cacatua avisando “Você está na Floresta Atlântica”. Logo mais à noite começa a IV Mostra Live Cinema com um videomapping. A inovação tecnológica está mais marcada na exibição de abertura pela participação do público na projeção através dos seus próprios celulares: o público instala um aplicativo em seus smartphones que lhe permite interagir com as imagens. Refletir sobre o lugar do público, o tipo de relação que se estabelece com a criação, nos possíveis novos cinemas parece um ótimo começo para esta mostra. Agora conferir como isso é feito e para que é feito, com que intenções poéticas.  A tecnologia em uso está longe de ser o mais importante – logo não será mais a mesma – mas a prontidão para a pesquisa, o envolvimento radical com as torrentes do conhecimento; são artistas-surfistas em sintonia corporal/mental com as gigantescas vagas de tecnologias digitais e a arte contemporânea, alegrando-se com a possibilidade de ir o mais longe possível, da forma mais elegante – ou atabalhoada, acontece – que conseguirem. É o movimento de uma época.  Nos próximos  dias  postarei fotos, vídeos e comentários sobre as performances destes artistas-atletas que terei oportunidade de acompanhar no IV Live Cinema e no Festival de Arte Digital que acontece logo em seguida em Belo Horizonte.  Seguimos conversando e compartilhando.

Os artistas responsáveis pela  proposta de abertura são:

Rafael Marchetti

http://www.rmarchetti.com/index/index1.html

Rachel Rosalen

http://www.rachelrosalen.com.br/

Programação da IV Mostra Live Cinema

http://www.livecinema.com.br/artigo/234