entre um dia e outro

2009 E 2010: ARQUIVO DE RESIDÊNCIAS . 2011 e 2012: PROJETO ESCUTA NÔMADE

Inhotim

Primeira vez em Inhotim, o parque botânico e de arte contemporânea distante duas horas de BH. Passei seis horas andando, apenas em uns quatro trabalhos me detive para uma apreciacão atenta, cuidadosa ao extremo. Espero voltar outras vezes, quem sabe se hospedar vizinho, dedicar a leituras e gestos específicos. Voltar para fruir exclusivamente dos jardins, por exemplo. Ainda assim, arrisco-me a dizer que há algo equivocado no ar. Não digo que seja opção pela grandiosidade das obras ou das galerias, nem mesmo me refiro à mediação dura, como monitores repetindo instruções ao longo do dia, como se fossem peças de um relógio desses com bonecos. São aspectos que podem ser contrabalançados, no fundo não essenciais. O que mais me causou dúvidas é a contínua diluição dos trabalhos em um ambiente de realeza.

Tomo como referência os cinemas-palácios que constituíram toda uma época do hábito de ir ao cinema. As salas e saguões foram construídas, mobiliadas e decoradas de tal forma que o frequentador tivesse a sensação deslizar pelos tapetes como um princípe. Não era simplesmente, estar na presença ou na casa do rei, a arquitetura permitia que o frequentador se sentisse o tal. Em Inhotim, todos se sentem com reis. Que pode não ter nada demais se você está em ‘resort’, num spa e deseja uma experiência de ilusionismo. Mas, que provoca no confronto e no diálogo com os trabalhos de arte um descompasso, uma alternância da qual precisa-se ficar atento. A porrada de determinadas obras, muitas delas vermelhas, sanguinolentas, se contrastam na saída com o verde idílico e parecem se integrar a um jogo estético formal oferecido a privilegiados que circulam num jardim com traços do estilo inglês, com imitações de paisagens naturais e seus pavilhões a representar mundos exóticos. Assim, as obras como que flutuando em um universo paralelo são apreciadas por espectadores mergulhados a um promenade em muito similar aos que aconteciam na europa do século XIX, embevecidos e atordoados pela ficção da paisagismo, de seus contextos urbanos e sociais. Como o Inhotim não vai mudar, uma melhor alternativa seria intensificar, distorcer seu aspecto disney, procurando através do silêncio, da desacelaração, da desautomatização uma dimensão sabática, própria. E os tesouros das terras mais distantes voltarão a brilhar. Por isso, quero voltar.

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