Dificuldades de conexão nos impediram de postar a miúdo sobre a IV Mostra Live Cinema. Mesmo tarde seguem agora alguns comentários avulsos.
Um dos trabalhos de abertura, Socket Screen, de Rafael Marchetti e Rachel Rosalen, merece uma descrição. Cheguei a tempo de ouvir das caixas de som um boa noite e a explicação de que quem não dispusesse de smartphone para participar da performance poderia pegar emprestado ali mesmo. Diante de nós um software na telinha de um celular e depois de fuçar um pouco entendemos como funcionava a proposta. Escreviamos uma palavra, o aparelhinho enviava em wi-fi para um servidor local que filtrava e transformava como palavra de busca dentro das codificações do google. Como resultado, imagens referentes à palavra escrita apareciam interagindo com imagens provocadas por outros participantes. O posicionamento das imagens era padronizadas, nunca inclinadas, ou de ponta-cabeça. O trabalho não desperta atenção pelas formas visuais, não se destacava na projeção nada especialmente interessante, mas provocava nos participantes sensações relacionadas à interatividade: a telona na Fachada do oi Futuro aparecia como mídia pública, espaço de poder acessível na ponta dos dedos. E a participação foi intensa, as pessoas postaram bastante e ficavam atentas procurando ler nas imagens as intenções, as idéias que estavam em curso, ou mesmo as possibilidades tênues de relação entre as diferentes imagens. Aos emblemas e fotografias do Flamengo corresponderam minuto depois emblemas e fotografais do Vasco; dos simbolos do Rio sucederam-se imagens do mar. Ainda que sem fio narrativo as pessoas assistiram com muita atenção, tal qual assistiriam um filme.
DIÁLOGO OU DISPUTA - Em parte, o interesse do público foi gerada por uma das dificuldades do trabalho: a participação na edição das imagens acaba se transformando em luta por afirmações individuais, onde a tela é ao mesmo tempo arena e trunfo. Tal como sucede com frequência na economia da atencão, percetptível no uso das redes sociais. O diálogo, a construção coletiva, que eram as intenções dos criadores não aconteceram. Mais tarde, em uma das oficinas, ele reconheceriam que era um trabalho em processo ainda com objetivos a serem alcançados como o de melhorar a situação de diálogo. Formalmente, disseram, não conseguiram colocar um certo ritmo de contração-explosão na massa de imagens. Ao que parece, o número de intervenções do público foi tão grande que deu tilt no sistema, com as imagens se sucedendo sem um tratamento mais elaborado de conjunto, quase sempre apenas surgindo e justapondo-se as imagens.
Do ponto de vista da história do cinema, certamente vemos neste tipo de trabalho o germe da experimentação da forma de exibição e fruição do cinema. E à parte, a constatação que o celular terá ainda muito tempo como a mais multiforme e disseminada das interfaces digitais, a prótese humana mais avancada, através da qual as técnicas de edição se disseminarão, a exemplo do aplicativo para iphone DJ Mixer desenvolvido pelo DJ Spooky, que possbilita aos usuários misturarem sons e músicas diferentes. Enfim, a ponta dos dedos ficou mais ramificada e seus raios bem mais poderosos que no tempo da primeira rebelião, a do controle remoto.












